E agora, Ipanema faz 110 anos. Aniversário. Terra de luz, de alegria, de vida pulsando.
No princípio era uma estreita faixa de areia entre o Arpoador e Jardim de Alá. As árvores, pequenas e tortuosas, assoladas por um vento forte e constante. Muitas pitangueiras enfeitavam a orla, oferecendo seus pequenos frutos ácidos que deixavam uma memória doce na boca. Plantas de folhas grossas e flores roxas espalhavam-se pela areia, e o ?espinho de paca? que espetava os pés descalços de quem ia buscar o mar. As ondas bravias desafiavam os banhistas. Mar difícil de ser domado, peixes sempre ao longe, depois da arrebentação. Mas na calma da praia, onde as espumas se espraiam em grandes leques, conchas e tatuís em quantidade.
Aos poucos os homens foram chegando. Primeiro uma trilha, depois um caminho, as casas dos pescadores. Viviam bem. E a praia de Copacabana, já famosa, obrigava o crescimento do bairro vizinho. No final dela, a rua Francisco Otaviano era a única ligação com Ipanema. Só mais tarde o bonde chegou até a Praça General Osório. Daí pra frente, era a pé. Depois, o loteamento, que na verdade era um extenso areal. Poucas pessoas tinham coragem de investir dinheiro naquele lugar.
E contam o caso de um senhor que hipotecou sua moradia na Tijuca, bairro chique da época, para comprar um lote de frente para o mar e fazer uma casa. E todos diziam: ?Ficou louco!?.
A mortandade dos peixes na Lagoa Rodrigo de Freitas trouxe um canal largo, com muros e pedras, comportas de ferro, sacadas como cais e uma ponte ligando Ipanema ao Leblon. E surgiu o Bar Vinte, que passou a ter a mesma importância que a Praça General Osório para a garotada do bairro. Centro de encontros dos rapazes à noite, em bancos sonolentos. Até às dez horas. Impreterivelmente.
O bonde então começou a atravessar de ponta a ponta o estreito entre o mar e a lagoa. Do outro lado de suas águas, o bonde já era coisa antiga. Afinal, tinha casas opulentas, Jardim Botânico, e o Jockey, freqüentado pelas elites.
Depois o Corte do Cantagalo, abrindo mais espaço para se chegar à Ipanema. A Praça Nossa Senhora da Paz ganhou importância. Igreja, estátuas, jardim cercado por oitis e fícus religiosos. Em suas copas, a sinfonia dos pardais anunciava o entardecer.
E muitos bares, alguns famosos até hoje. Foi em um deles que nasceu a música que faria Ipanema famosa no mundo inteiro. O chope, ?estupidamente gelado?, era a preferência.
O único bar que havia na praia, foi mudando de nome. Primeiro ?Pé Sujo?, depois ?Mau Cheiro?. Seu dono, para acabar com a pecha, resolveu fazer uma grande reforma. Para seu desgosto, o bar foi logo apelidado de ?Mau Gosto?, com sua fachada em cores azul-rei, branco e detalhes dourados... Anos depois, finalmente, foi batizado com um nome simples e simpático na já famosa Ipanema.
Cento e dez anos! Como disse o arquiteto Oscar Niemeyer: a vida é um minuto.
E Tom Jobim, num momento melancólico, desabafou: passou tão depressa, minha irmã!
*Escritor, irmã do compositor Antônio Carlos Jobim.
Helena Jobim