O presidente eleito está no centro das atenções. Até seus óculos vão pa-ra a primeira página dos jornais. Nesta semana, falou-se do mal que afli-ge os olhos de Sua Excelência (e os de quem superou a barreira dos 40 janeiros): a presbiopia.
Esse termo grego, em que está presente o elemento "presbi(o)-" ("ve-lho", "ancião"), é definido assim pelo "Aurélio": "Distúrbio visual que se observa na velhice, e em que se perde, por baixa da elasticidade e por diminuição da capacidade de acomodação do cristalino, o poder de dis-tinguir, com nitidez, objetos próximos".
Em "presbiopia", além de "presbi(o)-", temos "-opia", que significa "vi-são". Literalmente, "presbiopia" significa "visão de velho".
Pois bem, como os oftalmologistas dizem que a presbiopia ataca "um be-lo dia, depois dos 40", conclui-se, a partir disso e do que afirma o "Auré-lio", que a velhice chega mesmo aos 40. Já podemos, caro Lula, ostentar o título que Caetano Veloso nos dá na primorosa "O Homem Velho": "O homem velho é o rei dos animais".
E quem sofre de "presbiopia" é o quê? Recentemente, numa publicidade exibida num site, fazia-se esta pergunta: "Você é présbita?". Os dicioná-rios e o "Vocabulário Ortográfico" não registram "présbita"; só registram "presbita" (paroxítona; lê-se "presbíta").
Moral da história: o presidente eleito é presbita. Isso me lembra um fato que ocorreu comigo numa aula de acentuação. Num dos exercícios, havia a palavra "pudico". Não há acento nessa palavra, caro leitor, portanto não se lê "púdico"; lê-se "pudíco". Perguntei a uma aluna se ela era pu-dica. "Sai pra lá", disse ela, imaginando que a tal palavra fosse desabo-nadora.
Tergiversei para ver se conseguia me livrar da necessidade de explicar o significado de "pudica", o que equivaleria a expor a moça a constrangi-mentos. Não houve jeito. Em coro, os alunos pediram o significado, que é este: "Que tem ou revela pudor; casto, recatado; que se envergonha".
Quem lê "púdico" comete silabada ("erro de pronúncia, especialmente o que consiste em deslocar o acento tônico da palavra"). Vale a pena apro-veitar a ocasião para citar outras palavras que costumam deixar em dú-vida os falantes: "ibero", "rubrica", "condor", "gratuito", "circuito", "outrem" etc.
Como você as leu? Basta observar a grafia. Lê-se "ibéro" (e não "íbero"). Se a palavra fosse proparoxítona, haveria acento no "i". Vejamos a pro-núncia considerada culta das demais: "rubríca" (e não "rúbrica"), "con-dôr" (e não "côndor"), "gratúito" (e não "gratuíto"), "circúito" etc. A sílaba tônica de "outrem" é a primeira, portanto não se lê "outrém".
Neste texto, falei de "óculos" ("Até seus óculos vão..."). Pois bem, "ócu-los" é o plural de "óculo". Veja este fragmento do pungente poema "Ele-gia na Morte de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, Poeta e Cidadão", de Vinicius de Moraes: "Dize-me, meu pai / Que viste tantos anos através do teu óculo-de-alcance / Que nunca revelaste a ninguém?".
"Eu uso óculos escuros", diz J. Mautner na antológica "Vampiro"; "Quem não tem colírio usa óculos escuros", diz a canção de R. Seixas e P. Coe-lho. Que os novos óculos o ajudem a enxergar bem, caro presidente. É isso.